A carta que escrevi para você

Eu não me lembro de você. Não faço ideia de qual seja o seu nome ou como era o seu rosto.

Por que você é tão importante para mim? Porque hoje eu me lembrei com detalhes do que aconteceu e senti necessidade de me conectar com você.

Era uma tarde de sábado, uma confraternização do trabalho dos nossos pais em uma casa linda na orla da Lagoa da Pampulha.

Eu era aquela menina bem alta e gordinha, com uma roupa engraçada, escolhida pela minha mãe.

Vamos falar um pouco mais sobre a minha roupa, ela tem um papel relevante nessa história. Meus pais me amavam muito, tinham muita boa vontade e carinho, mas eles definitivamente não levavam jeito para cuidar de meninas (principalmente quando as meninas tinham cabelos cacheados…). Eu sempre fui bem alta e gorda. Eu não parecia muito uma criança, talvez uma adolescente, mas meus pais insistiam em me vestir com roupas infantis. Talvez por isso você tenha achado tudo tão engraçado.

Naquele dia, em especial, foi minha mãe quem me vestiu. Ela escolheu um vestido azul que tinha um laço cor de rosa bem grande, centralizado no peito. Foi o meu pai que penteou os meus cabelos, ele adorava fazer isso. Ele me sentava na penteadeira da minha mãe, pegava um pente bem fininho e, cuidadosamente, passava sobre os meus cabelos secos, desfazendo cada um dos meus cachos. Ele gostava mais de cabelos lisos. Sabe como é, né?

Meu pai adorava meus cabelos. Ele dizia que eles eram brilhantes e muito sedosos. Acho que ele gastava mais de uma hora nesse ritual. Ao final, ele não se importava se o meu cabelo estava extremamente volumoso e sem formas. Ele sorria o sorriso mais largo que podia, olhava nos meus olhos e dizia que eu estava a coisa mais linda do mundo! Depois ele me deixava ir brincar, mas não sem antes me dar um carinhoso beijo no topo da cabeça.

Você conhece muitos pais que gostem de cuidar dos cabelos das filhas? Eu não. Talvez por isso eu me sentisse ainda mais bela e especial.

Naquele dia eu tinha um corte de cabelo novo: uma franjinha, que nunca se mantinha alinhada, porque meus cachos penteados faziam com que ela ficasse cheia de ondulações, mas eu gostava da minha franjinha.

Depois de muitos elogios e palavras carinhosas dos meus pais, fui com minha mãe para a festa e lá nós nos encontramos.

Poxa, como eu estava animada! Conhecer os filhos dos colegas de trabalho da minha mãe, fazer novos amigos, brincar muito…

Custei um pouco para me enturmar, talvez porque minha mãe quisesse me apresentar para todos os seus colegas, mas, enfim, consegui me reunir a vocês para as brincadeiras.

Quando estávamos longe dos nossos pais, com as outras crianças todas ao seu redor, você olhou para mim e disse: “Quem escolheu o seu vestido?”.

Ah, eu não cabia em mim de satisfação, até endireitei a postura, enchi-me de orgulho para prontamente responder: “Foi a minha mãe!”.

Eu não conseguia disfarçar o sorriso, sabe? Durante a semana eu mal via a minha mãe. Ela trabalhava tanto…! Quando eu acordava, ela já havia ido trabalhar. Na hora de dormir, ela muitas vezes ainda não tinha chegado. Naquele dia erámos só eu e ela. Ela tirou um dia inteiro para mim e ainda escolheu a minha roupa. Sem dúvidas era um dos dias mais felizes da minha vida e eu tinha certeza que estava linda!

“Foi a minha mãe!” – Repeti.

Você então olhou para as outras crianças ao seu redor e juntos deram uma alta gargalhada, viraram as costas e saíram…

Aquele momento, de alguma forma, se eternizou dentro de mim.

Fiquei ali parada, como que vendo todas as minhas certezas se despedaçarem no chão, bem diante de mim.

Eu não era bonita. E o amor dos meus pais só me deixava ainda mais feia.

Eu não chorei. Eu me calei, enquanto aquela dor gritava dentro de mim, dizendo-me que eu não era digna de vocês.

Você não foi a primeira pessoa que riu de mim. Não! Muitos já haviam rido de mim outras vezes, me xingado até, mas eu nunca liguei pra eles. Meus pais me ensinaram a não dar bola quando alguém me xingasse, mas, por alguma razão, eu acreditei em você.

Sabe, aquilo me doeu tanto, mas tanto, que eu preferi apagar da minha memória aquela cena. Eu esqueci a nossa história. Era mais fácil assim.

Acho que nem preciso te dizer que minha vida nunca mais foi a mesma. Não por sua culpa, eu sei, mas porque naquele dia eu escolhi acreditar que eu não era boa o suficiente.

Eu não sou boa o suficiente. Por muitos anos, uns vinte, eu diria, essa foi a frase que guiou a minha vida. Essa foi a verdade que eu escolhi para mim.

E por que me lembrei disso tudo hoje? Porque hoje eu escolhi ser boa o suficiente. Hoje eu decidi que faria o que fosse preciso para me livrar da angústia de acreditar que não sou boa o bastante e substituir essa sensação pelo mais profundo amor que habita em mim.

Ao tentar recriar a cena que fez com que eu me sentisse “Não boa o suficiente” eu, instantaneamente, me lembrei de você. O mais engraçado é que aquele dia, aquele momento, nunca mais havia passado pelas minhas lembranças, mas hoje fui nocauteada por essa memória.

Preciso te confessar que, por mais que eu tenha tentado esconder esse momento embaixo do tapete, não foi muito difícil me lembrar dele. Foi muito dolorido. Ah, isso foi! Mas é uma daquelas dores que você sente de uma vez só, para nunca mais experimentar o sofrimento, sabe? Por isso valeu a pena.

E por que eu estou te contando isso agora? Para te dizer que eu te perdoo. Sim, eu entendo que você jamais faria uma crueldade intencionalmente, você só quis se divertir.

No seu lugar, na frente dos meus amigos, talvez eu fizesse a mesma coisa. Nós erámos apenas crianças.

Quero te dizer, ainda, que eu também me perdoo. Eu me perdoo pela dor que criei em mim e pelo desamor que eu nutri por mim mesma durante todos esses anos e por todas as situações de sofrimento que esse desamor causou em minha vida.

Espero que você também me perdoe e que possa sentir agora, onde quer que esteja, o abraço apertado e cheio de amor que estou te mandando daqui.

Que você siga em paz!

Com amor, Carol